#PapoFurado

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O silêncio dos trovões

Dizem os mais velhos
que os trovões são pigarros dos deuses.
Dizem os deuses
que os palavrões são as medalhas dos jovens.
Dizem os jovens
que as danações são coisas dos velhos.

Dizem os velhos
que os arranhões são castigos dos deuses.
Dizem os deuses
que as aptidões começam nos jovens.
Dizem os jovens
que os trovões são apenas barulhos, fenômenos da natureza.
Dizem os deuses
que os jovens estão certos.
Dizem os velhos
que os deuses estão mortos.

Dizem os céus
que as nuvens pigarreiam palavrões.
Dizem as nuvens, as trovadoras dos clarões,
que os relâmpagos vomitam raios,
os capilares das imensidões.

Dizem os ventos
que todos são regalos das evaporações.
Dizem as chuvas
que nem sempre em março fecham-se os verões.

De repente, um forte clarão!
Raio!
Chuva!
Correm os jovens à procura dos velhos.
Clamam os velhos a ajuda dos deuses.
Gritam os deuses: Salvem-se quem puder!

Três segundos depois,
vociferam do céu aos infiéis,
os barítonos menestréis:
“Silenciem todos!”
Dizem os trovões.

“Não somos substantivos,
somos verbos intransitivos”
(pensaram telepaticamente os filhos de Thor)
Nada mais disseram.
Deixaram as últimas gotas de orvalho serem as reticências.

A taça do silêncio só foi quebrada
por grilos e rãs que despertavam do sono
e nada entendiam.

Diego Schaun - 18 de Novembro de 2010

1 comentários:

  1. Belíssimo texto, poeta cantor. Muito legal a sincronia que operaste com "Dizem os...", ficou interessante, maduro, coisa de quem arquiteta o verso.

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